domingo, 11 de março de 2012

Sobre voto, palhaço e palhaçada.



O voto é a esperança que o eleitor deposita naquele em quem acredita ser a melhor opção para a gestão pública em todas as esferas. Porem, diante de poucas opções reais de mudança, desanimado, descrente, o eleitor resolve depositar este voto em forma de protestos em “figuras inusitadas da cultura brasileira”. Foi assim com o palhaço Tiririca que em 2010 recebeu 1,3 milhões de votos. O pitoresco de tudo isso não foi essa “pancada” de votos, mas sim o que o seu partido deseja fazer com seu cargo. Caso o partido do deputado Tiririca não seja “presenteado”, (com um ministério expressivo) “reverenciado” ou  “paparicado”  pelo governo federal,  na festa das coalizões, o partido ameaça emplacar o palhaço na corrida pela prefeitura de São Paulo.  Imaginem caros colegas leitores, Tiririca na prefeitura da maior cidade da America Latina. Tiririca virou “moeda de troca”, ou como queiram, um “super trunfo”, se lembram deste jogo? No momento oportuno apresenta-se o super trunfo (ano de eleições = momento oportuno) e se vence o jogo. Quando a palhaçada vence, fatalmente a sociedade pede. Esta modelo de “palhaçada” com os votos pode ocorrer também no âmbito municipal, ao se depositar o seu voto em um “personagem” que posteriormente poderá ser também uma moeda de troca e sabe-se lá nas mãos de quem.

Denis Matias
Professor Sociologia Ensino Médio

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sociólogo afirma que politização dos evangélicos faz democracia brasileira avançar

Na contramão de analistas que veem o crescente envolvimento de lideranças evangélicas com a política como algo negativo, sociólogo afirma que a politização dos evangélicos “faz a democracia brasileira avançar nos marcos de uma república”.


Visite: Gospel +, Noticias Gospel, Videos Gospel, Musica Gospel

Doutor em sociologia da religião pela PUC-SP e graduado em teologia, o evangélico Oneide Bobsin, deu uma entrevista ao site católico Instituto Humanitas Unisino, no qual falou sobre a relação de lideranças religiosas com a política e dos impactos que essa relação pode causar na relação dos governos com questões morais e religiosas.


Para Bobsin o Brasil tem uma democracia moderna, e que não terá sua laicidade afetada pela participação na política de pessoas declaradamente religiosas. Para o professor, o estado atual da democracia brasileira garante aos crentes e à suas lideranças o direito de manifestação, mas impede que possa haver um governo em nome de um credo.

Um assunto muito discutido atualmente é a influencia dos pastores evangélicos no processo eleitoral, como fonte de influência sobre as pessoas sob sua tutela religiosa. Ele relativizou esse poder ressaltando que o processo de politização tornará “os fiéis mais cidadãos do que ovelhas”.


Citando o líder comunista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) ele afirmou que, no âmbito da religião e política, “as camadas empobrecidas são mais pragmáticas” quando está em jogo a sua sobrevivência. O sociólogo observou que os programas sociais do governo tem maior poder de influência sobre as camadas mais pobres da sociedade do que os temas relacionados com o âmbito religioso: “Suspeito que, entre as camadas pobres, os programas sociais do governo federal têm um peso muito maior do que esses temas [da religião] ou outros ligados à corrupção”, afirmou.


Ainda sobre a influência religiosa no processo eleitoral, afirmou: “Como pesquisador e observador das igrejas e religiões, tenho percebido uma crescente autonomia dos fiéis em relação às suas lideranças religiosas e pastorais”. Ele concluiu dizendo que “cada vez mais as ovelhas não escutam a voz dos seus pastores quando se trata das questões públicas”.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A ANGÚSTIA DE SER MULHER



As mulheres estão sendo enganadas pela história. Escaparam da tirania machista de uma cultura assentada no masculino e caíram na tirania de que ser mulher é ser multimulher. Entre o lar opressivo de ontem e a opressão da eficiência em tudo que faz, a mulher não sabe o que decidir.
Esmagadas pela cobrança, tácita ou não, da maternidade num invólucro com prazo de validade vencido, o casamento, as mulheres brasileiras ainda não completaram historicamente o que suas homônimas já fizeram nos países ocidentais avançados. As mulheres ocupam 60% das vagas nas universidades brasileiras, em breve serão maioria no mercado de trabalho (nos Estados Unidos já são). Aliás, em alguns anos talvez ganhem mais do que os homens. Entretanto, o que mais se ouve em sala de professores, cafezinho de empresa e bate-papos é quase um uníssono de reclamação por parte delas, de que não estão contentes, muito menos satisfeitas.
Cada vez mais presentes no mercado de trabalho, ainda não conseguiram se desligar do espaço doméstico. São cada vez mais competentes e cada vez mais presas emocionalmente. Os filhos ainda são uma responsabilidade emocional (e também material) mais da mulher do que homem. Pressionadas por padrões de beleza inatingíveis, convertem-se em algozes de si mesmas, cobrando perfeição e jovialidade a cada ruga, gordura ou cabelos brancos que nelas surjam. A liberdade sexual se converteu em mais sofrimento, na mesma medida que liberada no discurso não consegue sê-lo na prática nem sentimentalmente. Ou, liberadas sexualmente, mas oprimidas pela idade.
Numa sociedade de consumo cada vez mais ajustada aos interesses da mulher, ela se transformou no consumidor ideal, compra compulsivamente e compra justamente aquele modelo inatingível, e quanto mais inatingível maior o esforço de continuar comprando. Estressada pelas cobranças na rua e em casa, pela empresa e pelos filhos, sobra-lhe a infidelidade de ambos. O emprego num mercado de trabalho global não é e nem pode ser garantido; em casa, a distância dos filhos, a impossibilidade crônica de estar por perto, quando a vida impõe distâncias, terminam por gerar mães ansiosas e filhos inseguros.
A mulher brasileira não sabe como conciliar, se é que é possível, família e futuro, o seu futuro. Se investir na família, ainda sim precisa continuar sexualmente atraente e com um pé no mercado amoroso, uma vez que nada garante a estabilidade do seu casamento. Se investir demais na família, perde espaço no mercado de trabalho, o que pode ser fatal. Investimento em família significa recurso emocional em torno de um projeto coletivo; envolvimento emocional é uma amarra que quando consensualmente aceita por ambos dá bons resultados, mas se um dos dois roer a corda, o outro arca com as consequências psíquicas de um projeto falido.
A falência de um casamento para a mulher costuma lhe acarretar maiores prejuízos. Dependendo do tempo, da quantidade de filhos (um ou dois), da idade, ela pode estar em grande desvantagem para o recomeço numa nova relação. A idade favorece mais o homem do que a mulher, o homem mais velho goza do prestígio e do charme que lhe recai pela idade; a mulher mais velha, numa sociedade assentada na beleza juvenil, perde valor e atrativo à medida que o tempo passa. Não fosse só isso, ainda sofre o machismo de arcar com o peso da separação numa cultura que sobrevaloriza o casamento e o matrimônio. Separada, mais velha, com filhos e sem garantias.
Sendo esse o pano de fundo onde atuam as mulheres, a maioria ainda quer casar e ter filhos e, se não os quer, não diz, nem se afirma em outra direção. Na rua e no mercado de trabalho, mas esmagadas pela pressão do lar, do casamento, dos filhos e da família. Sem poder voltar para casa, nem conseguindo completar sua saída, as mulheres vivem uma situação paradoxal no Brasil; a família se esvaziou e perdeu significado, a mulher perdeu o lugar e ainda não tem outro, aliás, tem, é o mercado de trabalho que vê nela mais qualidades para serem exploradas do que possui o homem. Nesse sentido, a mulher brasileira está entre o lar sem significado e o mercado de trabalho que mais oprime do que liberta.
O tempo histórico é o das mulheres, mas é também um tempo dominado pelo mercado de trabalho desregulado e liquefeito e onde a mulher caminha a passos largos para ser a maioria. A questão mais intrigante neste momento talvez não seja exatamente sobre o que elas ganharam nestas décadas, e sem ironia, ganharam muito, mas o que perderam ou, ainda, precisam ganhar.

Luciano Alvarenga, Sociólogo.